Pausa
...para reabastecimento.
Escrito por Dimas Klen às 22h50
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O homem que não tinha passado (PARTE 50 - FINAL)
(este conto começa aqui)
- E o que você pretende fazer agora?
Diacho de pergunta. Será que eu sei o que vou fazer agora? Será que quero fazer alguma coisa? Será que nós sempre temos que saber quem somos, para decidir o que faremos?
"Não sei. Acho que curtir mais esse dia. Essa experiência, essa irresponsabilidade. Essa inocência de poder viver por algumas horas sem sentir culpa por nada. Essa solidão que é caminhar sem sentir saudade de ninguém. Essa coragem de poder ir onde eu quiser, fazer o que eu quiser, sem me preocupar com as conseqüências, com o que os outros vão pensar de mim, com o que vai acontecer comigo. Eu sou livre."
- E você vai tentar ser livre quando voltar a ser quem era?
"Voltar a ser livre?"
- Sim...
"Não acho que a liberdade seja um ponto de chegada, farei isso para ser livre. Acho que é o contrário: sou livre, portanto farei isso e mais aquilo. Neste dia em que eu tentei viver, eu aprendi a ser livre. E liberdade não se esquece."
- E onde você vai agora, Homem Livre?
"Não sei. Comecei o dia de meu próprio julgamento pessoal, em que eu fui réu, testemunha, juiz e advogados, no centro de São Paulo. Saí da Consolação rumo ao Paraíso me conhecendo cada vez mais, e ficando cada vez mais livre. Acho que vou terminar este dia no Paraíso, mesmo que simbolicamente. Ver algumas pessoas, entrar em bares. Ser um homem na multidão antes de voltar a ser um homem na sociedade."
Finalmente, depois de só me metralhar com perguntas, ele se calou. E sorriu. Me deu um abraço e murmurou alguma coisa como "boa sorte". Fui caminhando rumo ao Paraíso. Nem fui me despedir do pessoal que eu tinha acabado de conhecer, até porque eu mal os tinha conhecido direito. Ainda queria descobrir muito mais de mim, de minha identidade verdadeira, antes de voltar àquela minha antiga personalidade, que tinha nome, história e RG.
Sim, ainda havia muito a descobrir.
Escrito por Dimas Klen às 08h00
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O homem que não tinha passado (PARTE 49)
(este conto começa aqui)
Ele falou, falou, falou, mas não tinha se esquecido de mim. Afinal, o amnésico neste diálogo sou eu, não ele.
- Mas, e então? Você acha que você era infeliz?
"Não sei. Mas, como você disse, estou vivendo uma experiência única. Poderia até ser engraçado, por exemplo, eu ir a várias pessoas que me conheçam de vários círculos diferentes, um colega de trabalho, um amigo, um parente próximo e um distante, explicar o que me aconteceu e pedir que eles me descrevam como eu sou para eu tentar me lembrar. Mesmo sem lembrar quem eu era, tenho certeza que cada um vai me descrever de uma maneira diferente. Nenhuma pessoa consegue ser ela mesma o tempo todo."
- E você quer fazer isso?
"Não. Não vai influenciar em nada quem eu sou, mesmo que eu não sabia exatamente o que signifique eu ser alguma coisa."
- E o que você achou desse dia?
"É como se eu acordasse e visse que, embora tudo parecesse absolutamente normal, alguma coisa muito absurda estivesse acontecendo na frente dos meus olhos. Como se após horas acordado eu percebesse que as cores tinham trocado de lugar. Como se eu olhasse para o céu e reparasse que havia alguma coisa estranha no fato de o céu ser amarelo e o Sol, azul. Só que eu não estou encontrando esse estranhamento no mundo, mas no espelho, na voz que sai da minha boca, no movimento das minhas mãos."
- E o que você pretende fazer agora?
(esta série em 50 microcapítulos termina no post de segunda, dia 18: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 15h55
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O homem que não tinha passado (PARTE 48)
(este conto começa aqui)
“Ok. Estou acompanhando. Você perdeu a memória em uma viagem, passou a viver uma segunda vida, apaixonou-se e vivia feliz para sempre... Até lembrar de sua vida ‘anterior’, de sua primeira mulher, de seu primeiro emprego. E aí, o que você fez?”
- Primeiro, quis esquecer de novo. Obviamente, não consegui. Depois, me expliquei para a Janaína. Achei que ser sincero era o melhor caminho. Ela ficou muito chateada, é claro. Ela e todos os meus amigos da nova vida. Nenhum deles me culpava, é claro, por essa nova situação, mas, definitivamente, não era agradável para ninguém. Então decidimos, não só eu, mas a vila inteira, mas todo mundo junto, o que fazer.
Parou para pedir mais um chope. Malditas interrupções para o chope.
- Decidimos que viríamos ambos, Janaína e eu, para minha primeira vida. Para São Paulo. Eu alugaria um quarto ou apartamento para ela, e eu iria encontrar minha primeira mulher, e aí eu decidiria a minha vida. Onde morar? Com quem? Com qual “personalidade”?
...
- Passei a me sentir um homem que usava máscaras. Não era um caso de duas personalidades. Era opcional: bastava eu escolher que máscara eu iria usar e pronto, já teria uma vida inteira arrumada para mim, com direito a amigos, mulher e hábitos diferentes. Até certo ponto, era um privilégio.
“Até certo ponto.”
- Sim. Na hora de virmos para cá, entretanto, Janaína não quis. Ela recuou. Disse que o homem que ela amava era, o Renato que ela conheceu (me deram esse nome porque eu havia renascido), era aquele, sem uma vida pregressa, sem outra mulher, sem outro emprego. Na verdade, me parecia medo. Medo do que ela encontraria aqui. Medo de não se adaptar, de se sentir inferior... Não sei ao certo. Mas ela não veio. E eu assumi o compromisso de vir, decidir a minha vida e voltar lá para contar. Afinal, se eu decidisse ficar, não gostaria que a Janaína ficasse à espera do amor que não veio.
“E você veio a São Paulo e assustou todo mundo. Afinal, seus amigos e parentes achavam que você tinha morrido.”
- Sim. Exatamente. Fiquei mais de um ano fora. Havia perdido meu emprego. Minha primeira mulher já havia casado de novo, com o ex-namorado dela. Descobri, aliás, que meu primeiro nome também era Renato.
“Ah, vá!”
- Juro! Mas, enfim, fiquei numa encruzilhada. Afinal, me sentia em casa nos dois lugares. Mas aqui é a minha cidade. Aqui é a minha vida. Aquela viagem, a minha segunda vida, foi maravilhosa, mas foi uma exceção.
“Você voltou para lá?”
- Voltei, sim Após quatro meses. Reencontrei a todos. Contei o que havia reencontrado e minha decisão. E consegui: trouxe Janaína comigo: é aquela morena linda que está conversando com aquele casal.
“Final feliz...”
- Dizem que se uma coisa não está bem, é porque ainda não acabou. Eu discordo não acredito em finais. O único final, para mim, é a morte. Acho que iniciamos uma nova fase. Foi muito difícil para ela. E agora... Agora uma vez por ano vamos passar um mês na vila dela. Não negamos o nosso passado.
Negar o passado... Acho que foi uma indireta.
(continua no penúltimo post desta série: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 15h51
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O homem que não tinha passado (PARTE 47)
(este conto começa aqui)
Após tanto encher o saco com as pessoas, fazendo perguntas sem fim para que a vida deles suprisse a minha total falta de vida, achei um cara que, antes de tudo, me reconheceu como amnésico. Mas, mais do que isso: tinha sido amnésico. E a história dele, convenhamos, era muito mais interessante que a minha. Afinal, a dele tinha amor.
- Eu me apaixonei. Por uma pescadora morena linda, chamada, claro Janaína. Tudo a ver com aquela vila de pescadores em que eu estava vivendo.
Vou fingir que entendi a referência a Janaína. Afinal, não quero interrompê-lo.
- Vivemos uma paixão daquelas. Eu não lembrava quem eu era antes de surgir naquela praia como uma entidade, como alguém totalmente alienígena. Mas a partir do momento que nossa relação começou, eu passei a me sentir como se lá fosse meu lugar, como se tudo o que eu tivesse vivido antes da amnésia, fosse lá o que fosse, não fazia a menor diferença. Aquele era meu lugar, aquela era a minha mulher, aquele era eu.
“E?”
- Eu estava errado, é claro. Não se pode apagar a nossa identidade assim.
“E como você se lembrou?”
- Não foi exatamente me lembrar. Eu tive três pesadelos. Foram dois meses entre um e outro, aproximadamente. E, veja como é a mente humana, eu sonhei não com a minha mulher, com meus amigos, ou com algo assim. Nos meus pesadelos, eu revivi os três piores momentos da minha vida.
“Putz.”
- Foram sonhos perturbadores, horríveis mesmos. E, quando acordava, não me lembrava claramente deles. Via lampejos. Frações do pior que havia visto e sentido na minha vida anterior. E foi esse pior, esses sentimentos tão ruins, que me fizeram perceber que havia algo errado.
“E o que você fez?”
- Depois do terceiro pesadelo, me lembrei. Não da minha vida inteira, mas do aspecto geral dela. Eu era casado com outra mulher. Na verdade, naquele momento eu era bígamo, tinha dois nomes e dois empregos. Eu era duas pessoas em uma. E tinha que decidir: mantinha essa identidade nova, abandonando a anterior, ou o contrário?
(continua no post de quinta, dia 14: aqui [com um dia de atraso])
Escrito por Dimas Klen às 00h48
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O homem que não tinha passado (PARTE 46)
(este conto começa aqui)
- E então? Você acha que você era infeliz?
“Você anda perguntando muito para alguém que não se lembra das respostas, não acha?”
- Hehehe.
“Afinal, como você reconheceu o... meu estado?”
- História longa.
“Vamos combinar que eu tenho tempo...”
- OK, versão resumida. Já passei por isso. Anos atrás. Era casado, tinha emprego, uma vida burocrática, mas boa. E estava em um pequeno avião sobre o Nordeste brasileiro. O avião caiu... Nadei por horas, mas sobrevivi estafado. Quando cheguei à praia, desmaiei. Delirei por horas, entre um misto de sono e desmaios. Quando acordei, estava cercado por uma tribo de pescadores. Haviam me recolhido na praia e me levado até lá. E eu não sabia mais quem eu era.
...
- Me trataram como um novo morador de lá. Me deram casa, comida – peixes, claro – e me ensinaram como era o modo de vida lá. Quase não havia energia elétrica. A cidade era uma vila pequena, no meio das dunas de areia. Como venta muito, a cada período de anos a areia começa a cobrir as casas, então eles reconstroem as casas em outro lugar. É quase uma cidade móvel. Há uma televisão, colocada no meio da praça por algum político em busca de votos, que está sempre desligada. Parece um monumento guardado dentro de uma espécie de altar.
...
- Não havia cultos na igreja, embora as pessoas fossem religiosas. A igreja era a única construção forte lá. A cidade era reconstruída ao redor dela, como se ela fosse o centro da vila. Quase uma metáfora de muitas sociedades, para ser sincero. Mas ela estava sempre trancada. Só abria para receber o povo uma vez por semana a cada nove meses, quando um padre ia lá realizar casamentos, batizados e unções dos enfermos.
...
- Não havia dinheiro. Afinal, dinheiro para que?
!!!
- E eu, sem me lembrar quem era, fui rebatizado e passei a viver como um deles. Pescava, ajudava os outros, trabalhava quando tinha que trabalhar. E, é claro, me apaixonei. Afinal, não há história sem amor, há?
(continua no post de quarta, dia 13: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 10h17
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O homem que não tinha passado (PARTE 45)
(este conto começa aqui)
“O que pode ser pior que descobrir que eu sou mau, que fiz mal às pessoas?”
- Você pode ser um infeliz que caiu na rotina. Acorda, trabalha, estuda, transa, dorme. Não tem sentimentos, não tem aventuras, não tem perspectivas. Foi levado pela vida e não se importou. Resignou-se a passar o tempo aqui na Terra.
Ups, não pensei nisso.
- "Cada um coloca sua pedra no edifício e, sua tarefa feita, desaparece. A eternidade nos precede, a eternidade nos segue: entre dois infinitos, que é o lugar de um mortal?" Isso dizia Proudhon no século passado. Pouca gente tem noção disso, mas, entre eles, ainda menos pessoas se dão o trabalho de tentar aproveitar esse átimo de tempo. O que você está passando pode ser um drama, mas também pode ser uma aventura. A sua chance de ser diferente. O dia em que você tentou viver.
O dia em que eu tentei viver.
- O que você achou desse dia?
"Não sei, é difícil dizer. De fato, tentei viver. Tentei descobrir quem eu sou. Tentei descobrir se valia a pena descobrir quem eu sou. Por que eu tenho que ser alguém?"
- É uma pergunta retórica ou você quer uma resposta?
"Você tem a resposta?"
- Não, mas tenho mais perguntas.
"Pode falar."
- Por que você tem de ser alguém? E dá para você tentar não ser alguém?
"Dá para eu tentar não ser eu mesmo."
- E a que isso te levaria?
"Não sei, não lembro quem eu era. Mas talvez me levasse a ser mais feliz."
- Você acha que você era infeliz?
Passei o dia inteiro enchendo o saco das pessoas fazendo perguntas. Esse cara é a vida me dando o troco...
(continua no post de terça, dia 12: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 22h14
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O homem que não tinha passado (PARTE 44)
(este conto começa aqui)
Eu me meti numa mesa de bar com um monte de gente que não conheço, e aí me aparece esse cara, do nada, e me pergunta há quanto tempo estou com amnésia. Como diabos ele percebeu?
“Como?”
- Eu já passei por isso. Você acha que não é fácil para alguém que já viveu essa experiência reconhecer outro amnésico?
Cara, isso é simplesmente inacreditável. Nem quando eu deixo de ser quem eu sou, viro um não-eu, alguém sem passado nem nada, não me torno único. Sempre tem alguém igual a mim, o que consegue se identificar comigo.
“Desde que acordei.”
- E você não se lembra de absolutamente nada? Seu nome, o que você fez ontem, se você já passou por isso antes?
“Nada.”
- E o que seus familiares falaram?
“Não sei, não encontrei nenhum deles.”
- Você mora sozinho?
“Não sei, acordei em um hotel e não encontrei ninguém conhecido desde então.”
- E por que você não quis descobrir quem você era?
“Quem disse que eu não quis?”
- Ora, convenhamos, se você se apresentar a uma delegacia, quanto tempo você acha que eles vão demorar pra encontrar seus pais, sua esposa, seus vizinhos, sei lá quem?
Ups.
- Você nem pensou nisso, não é?
“Não mesmo.”
- Você está gostando dessa situação, não é?
“Não sei, acho que sim.”
- É uma situação até certo ponto cômoda, se você não sentir medo.
“Medo? Por que eu sentiria medo? E por que cômoda?”
- As pessoas costumam temer o desconhecido. Você não sabe quem é ou o que fez para estar assim, portanto pode ser um criminoso. Ou pior.
Esse cara está tentando me assustar ou é impressão?
(continua no post de segunda, dia 11: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 10h01
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(este conto começa aqui)
OK, já percebi que estava evitando encarar minha amnésia e tentar descobrir quem eu sou. Que ficava desviando-me do meu caminho para ouvir outras histórias, outras pessoas, outros tudo, em vez de olhar para mim.
Mas vi aquele cara sentado, sozinho, num bar no meio da avenida Paulista, e não resisti. Sentei para puxar conversa.
Poderia dizer que sentei porque estava com pena da solidão dele, ou porque me identifiquei com ele, um homem sozinho na multidão. Mas era fuga mesmo, não posso negar.
“Boa noite, companheiro.”
- Opa, e aí, tudo bem?
“Perfeito, e você?”
- Na boa.
Merda, voltamos à esatca zero: estamos sem assunto.
“Está esperando alguém?”
- Sim. Mas que merda..
“Merda?”
- Não, não é isso. Quero dizer, marquei com um monte de amigos do meu antigo emprego aqui e não chegou ninguém. Merda.
“Será que deu algum pepino lá e eles tiveram que ficar até tarde?”
- Acho que não. Ei, olha aí, quem chegou!
E, de repente, começou a chegar um monte de gente. Pô, não sabia que tinha tanta gente assim em São Paulo, não é possível, deve ter gente vindo de outras cidades também.
Acabei me desinteressando pelo papo. Realmente, não tava conseguindo entender nada, era aquele papo cifrado de quem se conhece há pelo menos três encarnações e meia, ou que parece que se conhece há tanto tempo assim. Fiquei entretido com uma garrafa de cerveja que brotou na minha frente, nem vi de onde. Provavelmente já derramaram tanta cerveja nessa mesa que agora ela já nasce por geração espontânea.
E também não conseguia me enturmar. Não queria dar opinião de nada pelo simples fato de que não sabia a minha própria opinião. Não conheço a minha história, não sei qual a minha relação com este ou aquele tema, como ele já afetou a minha vida, se é que afetou.
Fiquei na minha, tentando ver se, caso eu me concentrasse bastante, conseguiria fazer outra cerevja brotar da mesa. Aí veio um cara meio de lado, me puxou pelo ombro e me fez um sinal com o queixo para eu segui-lo.
- Há quanto tempo você está com amnésia?
(continua no post de sexta, dia 8: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 12h40
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O homem que não tinha passado (PARTE 42)
(este conto começa aqui)
Fui caminhando a esmo na avenida Paulista - que é uma coisa que eu descobri que curto fazer - e eis que me encontro em um lugar chamado Prainha. Sem piadinhas com o fato de haver um lugar em São Paulo, a uma hora do mar, chamado Prainha, por favor. Já não chega a inveja que a gente tem do Rio. Bom, dei uma lenta olhada em volta e achei uma figura interessante: um cara sentado, sozinho. Ele me parecia muito triste - mas, até aí, toda pessoa que está sozinha me parece triste. Será projeção? Desta vez, não pensei, agi. Não porque o professor do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” estava certo e o negócio é aproveitar o tempo, ou porque se você não tiver uma boa desculpa para não fazer, vá lá e faça. Mas porque eu estava sozinho.
A verdade é essa. Eu estava sozinho. Estava começando a ficar cansado desse negócio de ficar andando de lá para cá, tentando me descobrir sem fazer esforço algum. Evitando me encontrar. Fugindo, evitando. Inventando pequenas coisas para me distrair, conversando com pessoas, me distraindo, em vez de ir direto ao ponto.
Nasci mais sozinho do que todo mundo. Em vez de um quarto de hospital, fui parido em um quarto de hotel. Não tive parteira, obstetra, pai. Nem mãe. Já nasci adulto. Já nasci sabendo. Na adolescência, o jovem normal se rebela, começa a se separar dos pais e entrar nos modos e comportamentos dos da sua geração. Durante alguns anos, porém, em que ele está atravessando essa mudança, ele se sente sozinho. Estranha a si próprio. Sente-se incompreendido, daí rebelde. Procura alguém em quem se apoiar, daí os ídolos. Ou algo, daí as drogas. Ou o sexo, os livros, a televisão.
Embora recém-nascido, e portanto um bebê, eu estou perdido, em transição, estranhando meu corpo e meus atos, procurando por algo ou alguém que eu não sei quem ou o quê é. Um adolescente, portanto. Mas com um corpo já de adulto. Bebê, adolescente, adulto. Sozinho, daí sentar-me na mesa daquele cara que eu nem conhecia e certamente estranharia a minha presença.
(continua no post de quinta, dia 7: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 00h11
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O homem que não tinha passado (PARTE 41)
(este conto começa aqui)
Meu amigo escritor está contando a história do tal Eldrox, que ia viajar, mas não foi, e ficou sozinho por alguns dias.
Eu estou sozinho há algumas horas e já fico puxando assunto com pessoas que não conheço...
- A família ia viajar. Prompt, seu irmão, convenceu Eldrox a ficar. Na hora de viajar, entretanto, o Prompt viajou. Eldrox nos contou que na noite de ir embora ele teve um sonho em que ele estava preso em um elevador. Trancado, no escuro, sem celular, sem interfone, sem nada. E ele começou a gritar, a chorar e a amaldiçoar sua vida. Eu já te disse: o Eld é abstêmio, antitabagista e extremamente tímido
Até aí eu não sei quem eu sou e não vou pré-julgar um cara pelo o que dizem que ele é.
- Aí, ele disse que perdeu o controle. Encontrou essa tal mulher, a Tana, e se apaixonou por ela. Ele, que nunca tinha tido ninguém que realmente gostasse dele, encontrou aquele mulherão que estava, aparentemente, apaixonada por ela.
Ih. Aí tem.
- Mas algo aconteceu. Depois de alguns dias de paixão tórrida, ele a flagrou com outro.
Merda. Coitado.
- Eu não entendi direito. Parece que ela é, ou era, prostituta, e estava escondendo isso dele. Quando ele descobriu, pirou. Na verdade ele já estava meio fora de si. Não sabia o que fazer com aquela paixão. Nunca havia sentido nada assim. O namoro anterior dele parecia qualquer coisa, menos um namoro. E vem aquela mulher do nada, toda carinhosa... Ele se perdeu.
“Certo...”
- E aí ele descobriu isso. Misturou paixão, ciúmes e o sentimento de traição, por ter descoberto como descobriu. Resultado: ele, da noite para o dia, virou um junkie. A versão masculina e de carne e osso da Rê Bordosa...
Grande Rê Bordosa. Se ela existisse, adoraria tomar umas com ela. Personagem hilária!
- Pouco tempo depois, ele foi parar no hospital. Misturou muito pó com muita bebida. Sobreviveu, mas...
“Mas?”
- ...que o pariu! Olha a hora! Eu tenho que sair! Desculpa, mas eu vou nessa! Ó, pega meu cartão e me liga, hein? Tchau!
E lá se foi o futuro orgulho da dramaturgia brasileira. Gente fina.
E agora? Vou encher o saco de quem? É tão mais fácil encher o saco de alguém do que tentar resolver seus próprios problemas, já reparou?
Na minha situação, então... Tentar curar minha amnésia e descobrir quem eu sou, voltar para casa ou... Pegar um pobre coitado a dedo e ficar ouvindo o cara falar e tirar um pouco de sarro dele! Adivinha qual opção eu escolhi?
(continua no post de quarta, dia 6: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 00h22
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O homem que não tinha passado (PARTE 40)
(este conto começa aqui)
Não sei quem eu sou. Até aí, também não sei o nome do cara com quem estou conversando. Nos encontramos na rua e viemos parar aqui num café. Quem é carente? Eu? Hehe. Pode apostar nisso.
- O que você achou dessa “I Will Survive”?
“Eu diria até que eu me identifiquei com ela.”
- Quem não se identifica nos dias de hoje?
Na verdade, eu não me identifiquei literalmente, mas isso não dava para explicar. É como se eu mesmo estivesse dizendo “enquanto eu souber como amar eu sei que eu estarei vivo. Eu tenho toda a minha vida para viver. Eu tenho todo o meu amor para dar. Eu vou sobreviver.”. É como se a música fizesse muito sentido para mim e eu fizesse muito sentido para ela. Nós dois nos complementaríamos. E o engraçado é que eu não estou sobrevivendo, mas vivendo. Não tenho vida anterior a esta, não tenho nada. Só o que eu sou e estou aqui e agora. E, egocentrismo à parte, já é mais do que suficiente.
- Agora, voltando para a história do Eldrox. Ele continuou cantando até que uma hora ele a mina levantaram e foram embora. Só no dia seguinte ele explicou para a gente o que foi que aconteceu.
“E foi o seguinte...”
- E foi o seguinte: quando a família dele decidiu viajar, ele e o Prompt resolveram não ir junto. Afinal, viajar com os pais é um saco, gente da nossa idade quer mais mesmo é ficar entre os seus “próximos”, ou seja, entre quem também está descobrindo o amor, a maconha, a camisinha, o rock`n`roll, a poesia do mundo inteiro e o cinema que é produzido fora dos Estados Unidos. Mas, na última hora, o Prompt terminou com a menina dele e resolveu ir com os pais. O Eldrox ficou inconformado. A justificativa do seu irmão foi que se ele ficasse parado, encostado em um canto, ou mesmo saindo com a gente como se nada tivesse acontecido, ele jamais aceitaria sua nova condição de solteiro e partiria para procurar uma nova garota. Foi uma decisão madura, na minha opinião. O próprio Eldrox, por exemplo, tinha terminado com a menina dele uns 15 meses antes e ainda não tinha voltado a sair com uma mulher. Ele ainda não havia despertado um belo dia, posto os pés nus no chão frio, coçado o cabelo despenteado e percebido a grande máxima da sociedade contemporânea: “mulheres, vocês existem!”. Ele tinha ficado meio que resignado no seu canto. Ele não só parecia querer que uma mulher aparecesse do nada no seu apartamento e lhe dissesse “oi, vim namorar você” como parecia exigir que ela ligasse antes avisando que vinha.
É, esse é mais um companheiro pra turma do Mano-que-disse-tchau-antes-de-dizer-oi e do Cara-que-definiu-a-tristeza-como-um-bumerangue. Porque por esse tipo de tristeza só passaram eles e a torcida da seleção brasileira. Quem não passou por isso?
Será que eu passei por isso e não lembro? Certamente...
(continua no post de terça, dia 5: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 09h57
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O homem que não tinha passado (PARTE 39)
(este conto começa aqui)
Não sei quem eu sou. Amnésia.
Não sei o nome do cara com quem estou conversando. Desleixo.
Simplesmente nos encontramos na rua, ambos precisando conversar, e viemos parar aqui num café. Eu o chama de William porque ele é escritor... De “William Shakespeare”. Tá, nada original. E quem eu sou para sair por aí “batizando” os outros?
Adoraria saber.
- Sem humildade nenhuma, eu posso dizer que eu também funciono meio que como o centro dessa Rosa dos Ventos. Eu que agito as saídas, o futebolzinho de sábado, as idas ao cinema, as vaquinhas para comprar os presentes de aniversário. Aliás, há dois anos que eu não ganho presente porque essa moçada acéfala se esquece qual é a minha data.
“Amigo é pra essas coisas!”
- Nem brinca, essa é a minha música predileta, me explica muita coisa e me conforta sempre.
Música? De que música ele ta falando?
- Aliás, o simples fato de eu saber que eles existem já é um consolo. Por maior que seja a merda que esteja me acontecendo, o fora que a menina esteja me dando, eu sempre penso, “bom, já tenho com o que divertir a moçada na próxima sexta no Riviera”. Mesmo indiretamente eles estão sempre comigo.
Caiu no lugar-comum. Preferia quando ele estava falando da rosa dos ventos, que cada um aponta pra uma direção diferente, mas mesmo assim estão sempre unidos. Gostei da analogia.
- Enfim, eu falo “nós” e não “eu” quando estou contando essa história porque nós conversamos várias e várias vezes sobre esse episódio para tentar entendê-lo e todos sentiram a mesma coisa. Aliás, as mesmas coisas. Enfim, uma hora ele cansou de acariciar a cabeça dela e começou a falar. “Eu não morri, querida.” E cantarolou: “At first I was afraid, I was petrified. I kept thinking I could never live without you by my side.” Você fala inglês?
“Nem.”
- Então vou fazer uma tradução aproximada. Ah, é uma música da Gloria Gaynes, que aparece no filme “Priscila, a Rainha do Deserto”. Diz assim: “No início eu estava com medo, estava petrificado. Eu fiquei pensando que eu não poderia jamais viver sem você ao meu lado. Mas então eu passei tantas noites apenas pensando em como você me fez mal. Fiquei mais forte. Aprendi como continuar.”
Letra bem legal, essa. Tem um quê de Paulo Coelho, Lair Ribeiro, uma coisa “você quer, você pode, você faz”, mas é bem legal. É meio que um misto de depoimento com desabafo. Parece que o cara estava entalado com coisas para dizer para a ex-patroa e uma hora não agüentou mais segurar a pressão e soltou tudo de uma vez.
- “E então você está de volta. Eu acabei de entrar e te encontrei aqui, sem aquele olhar no seu rosto. Eu deveria ter mudado a porra da minha fechadura. Eu teria feito com que você tivesse deixado a sua chave se soubesse ao menos por um segundo que você voltaria para me incomodar.”
Gostei...
- E o refrão diz assim: “Ah, agora vá. Passe por aquela porta. Vire-se agora. Você não é bem-vinda aqui nunca mais. Não foi você quem tentou me quebrar com desejo? Você achou que eu iria me desfazer em pedaços? Você achou que eu iria deitar e morrer? Ah, não. Não eu. Eu vou sobreviver. Enquanto eu souber como amar, eu sei que eu estarei vivo. Eu tenho toda a minha vida para viver. Eu tenho todo o meu amor para dar. Eu vou sobreviver. Eu vou sobreviver.”
(continua no post de segunda, dia 4: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 00h00
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O homem que não tinha passado (PARTE 38)
(este conto começa aqui)
“William Shakespeare” brasileiro, meu amigo escritor que de William Shakespeare não tem nada, é só brasileiro, está me contando de uma história de amizade, confiança... e culpa.
Como é difícil ser amigo de alguém. Não “colega”: amigo de verdade.
- É lógico que ele tem direito à sua privacidade. Pode passar um mês ou quantos ele quiser longe da gente. Eu só acho que ele poderia dizer por que queria distância da gente, onde é que estaríamos errando com ele. Para que não repetíssemos o erro.
Lógico.
- Ao mesmo tempo, não foi isso o que incomodou. Foi a gente perceber, naquele momento, com aquela estranha chorando desesperada no colo dele, que nós tínhamos sido passados para trás. Tudo bem, mesmo que ele prezasse seus novos amigos mais do que a gente, e não há mal nenhum nisso, a gente queria estar por perto só para acompanhar, para torcer por ele, fazer companhia, ajudar em todos os sentidos, financeiramente inclusive. Porra, o cara entrou um coma, não é que ele foi obturar uma cárie.
...
- E nós ficamos ali, assistindo àquela cena, sem entender. E queríamos, mais do que tentar consolar a menina, ouvir as explicações dele. Sim, foi egoísmo da nossa parte, mas nós não estávamos nem aí para ela. Nós nos sentíamos traídos.
“Engraçado que você está contando a história do seu ponto de vista, mas conjuga os verbos na primeira pessoa do plural.”
- Sim. Embora pareça pretensioso, e de fato talvez seja, a gente se conhece tanto que podemos dizer... A gente se conhece. Deixamos de ser oito há muito tempo, viramos um só. Uma rosa dos ventos, na verdade. Como nós somos muito diferentes uns dos outros, cada um aponta sempre numa direção, tanto nos esportes, como nas artes e até nos nossos comportamentos. E o centro dessa rosa dos ventos é a nossa amizade, o respeito que nós temos uns pelos outros e, principalmente, pelas nossas diferenças. É isso que nos mantém unidos.
Será que eu pertenço a uma rosa dos ventos como essa? Será que eu dou tanta importância assim a meus amigos? Será que algum amigo meu, ou qualquer outra pessoa, não importa quem, se importa assim comigo?
(continua no post de sexta, dia 1: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 23h06
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O homem que não tinha passado (PARTE 37)
(este conto começa aqui)
Meu amigo escritor, a quem eu batizei de “William Shakespeare” brasileiro, está me contando de um mistério a respeito de um de seus melhores amigos.
Como não tenho nada mais importante a fazer, como descobrir meu nome real, onde moro etc., estou adorando ouvir.
- Ela veio do nada, pulou em cima dele, abraçou-o e começou a chorar compulsivamente. E gritava “por que você não me ligou? por que você nunca me ligou de volta? eu achei que você tinha morrido! eu achei que você tinha morrido!”. Ninguém entendeu nada, obviamente. Quem era aquela mina abraçada a ele, beijando-o no rosto e na boca daquele jeito? Onde ele a conheceu? Ele não a conhecia antes das férias, isso é certo. Nós conhecíamos todos os amigos dele. Então, como é que eles ficaram íntimos tão de repente? Qual era relação entre eles? O que ela quis dizer com “eu achei que você tinha morrido!”? O que tinha acontecido com nosso amigo? Logo ele, que ainda por cima era o mais tímido da turma, com um mulheraço daqueles se jogando em cima dele, chorando por ele.
Com todo respeito, William, os tímidos também têm direito à sua porcentagem.
- Ele não falou nada na hora, mas o que deu pra entender é que... Bom, o que era mais estranho é que ela ficava olhando os braços deles, beijando os braços dele, e chorando “você parou, ainda bem! ainda bem!”. Aí ela falava que tava feliz que ele tava bebendo guaraná e não estava fumando. Meu, ele era abstêmio e anti-tabagista, aqueles comentários não faziam o menor sentido. E ela falava tanta coisa ao mesmo tempo que era difícil entender, mas o que a gente pescou é que ele tinha tomado uma overdose de heroína e ido pra UTI em coma! Cara, você sabe o que é isso? Um cara que nunca tinha sequer fumado maconha ir para a UTI por over de heroína? E, se ele tinha ficado tão mal, por que ele não chamou a gente? E, mesmo que a gente tivesse feito algo contra ele e ele estivesse chateado conosco, o que certamente não era o caso, nós jamais deixaríamos de ajudá-lo em um momento daquele. Mas sabe o que é pior?
Eu me recusei a responder porque era mais do que óbvio que ele contaria mesmo que eu dissesse “não e não faço a menor questão de saber”.
- Por que ele não contou nada pra gente? Cara, a gente se amava. Não éramos uma família, éramos amigos, no sentido visceral da palavra. Estávamos juntos para ir ao cinema ou ao hospital, a uma igreja ou a um cemitério, para viajar ou para fazer companhia enquanto o outro esperava o ônibus. Por que ele não falou nada para a gente?
O que quer dizer com “ser amigo no sentido visceral da palavra”?
- Se ele ou qualquer outro da turma pedisse, nós tocaríamos o puteiro no Céu ou rezaríamos uma missa no Inferno. Transaríamos 15 vezes em um dia ou passaríamos o resto da vida cumprindo voto de celibato. Nunca deixaríamos nenhum dos nossos para trás, como até hoje não deixamos.
OK, OK, acho que já entendi o que é “amizade em seu sentido visceral”...
(continua no post de quinta, dia 31: aqui)
Escrito por Dimas Klen às 08h50
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