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    Kontos
     


    O homem que não tinha passado (PARTE 49)

    (este conto começa aqui)

     

    Ele falou, falou, falou, mas não tinha se esquecido de mim. Afinal, o amnésico neste diálogo sou eu, não ele.

     

    - Mas, e então? Você acha que você era infeliz?

     

    "Não sei. Mas, como você disse, estou vivendo uma experiência única. Poderia até ser engraçado, por exemplo, eu ir a várias pessoas que me conheçam de vários círculos diferentes, um colega de trabalho, um amigo, um parente próximo e um distante, explicar o que me aconteceu e pedir que eles me descrevam como eu sou para eu tentar me lembrar. Mesmo sem lembrar quem eu era, tenho certeza que cada um vai me descrever de uma maneira diferente. Nenhuma pessoa consegue ser ela mesma o tempo todo."

     

    - E você quer fazer isso?

     

    "Não. Não vai influenciar em nada quem eu sou, mesmo que eu não sabia exatamente o que signifique eu ser alguma coisa."

     

    - E o que você achou desse dia?

     

    "É como se eu acordasse e visse que, embora tudo parecesse absolutamente normal, alguma coisa muito absurda estivesse acontecendo na frente dos meus olhos. Como se após horas acordado eu percebesse que as cores tinham trocado de lugar. Como se eu olhasse para o céu e reparasse que havia alguma coisa estranha no fato de o céu ser amarelo e o Sol, azul. Só que eu não estou encontrando esse estranhamento no mundo, mas no espelho, na voz que sai da minha boca, no movimento das minhas mãos."

     

    - E o que você pretende fazer agora?

     

    (esta série em 50 microcapítulos termina no post de segunda, dia 18: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 15h55
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    O homem que não tinha passado (PARTE 48)

    (este conto começa aqui)

     

    “Ok. Estou acompanhando. Você perdeu a memória em uma viagem, passou a viver uma segunda vida, apaixonou-se e vivia feliz para sempre... Até lembrar de sua vida ‘anterior’, de sua primeira mulher, de seu primeiro emprego. E aí, o que você fez?”

     

    - Primeiro, quis esquecer de novo. Obviamente, não consegui. Depois, me expliquei para a Janaína. Achei que ser sincero era o melhor caminho. Ela ficou muito chateada, é claro. Ela e todos os meus amigos da nova vida. Nenhum deles me culpava, é claro, por essa nova situação, mas, definitivamente, não era agradável para ninguém. Então decidimos, não só eu, mas a vila inteira, mas todo mundo junto, o que fazer.

     

    Parou para pedir mais um chope. Malditas interrupções para o chope.

     

    - Decidimos que viríamos ambos, Janaína e eu, para minha primeira vida. Para São Paulo. Eu alugaria um quarto ou apartamento para ela, e eu iria encontrar minha primeira mulher, e aí eu decidiria a minha vida. Onde morar? Com quem? Com qual “personalidade”?

     

    ...

     

    - Passei a me sentir um homem que usava máscaras. Não era um caso de duas personalidades. Era opcional: bastava eu escolher que máscara eu iria usar e pronto, já teria uma vida inteira arrumada para mim, com direito a amigos, mulher e hábitos diferentes. Até certo ponto, era um privilégio.

     

    “Até certo ponto.”

     

    - Sim. Na hora de virmos para cá, entretanto, Janaína não quis. Ela recuou. Disse que o homem que ela amava era, o Renato que ela conheceu (me deram esse nome porque eu havia renascido), era aquele, sem uma vida pregressa, sem outra mulher, sem outro emprego. Na verdade, me parecia medo. Medo do que ela encontraria aqui. Medo de não se adaptar, de se sentir inferior... Não sei ao certo. Mas ela não veio. E eu assumi o compromisso de vir, decidir a minha vida e voltar lá para contar. Afinal, se eu decidisse ficar, não gostaria que a Janaína ficasse à espera do amor que não veio.

     

    “E você veio a São Paulo e assustou todo mundo. Afinal, seus amigos e parentes achavam que você tinha morrido.”

     

    - Sim. Exatamente. Fiquei mais de um ano fora. Havia perdido meu emprego. Minha primeira mulher já havia casado de novo, com o ex-namorado dela. Descobri, aliás, que meu primeiro nome também era Renato.

     

    “Ah, vá!”

     

    - Juro! Mas, enfim, fiquei numa encruzilhada. Afinal, me sentia em casa nos dois lugares. Mas aqui é a minha cidade. Aqui é a minha vida. Aquela viagem, a minha segunda vida, foi maravilhosa, mas foi uma exceção.

     

    “Você voltou para lá?”

     

    - Voltei, sim Após quatro meses. Reencontrei a todos. Contei o que havia reencontrado e minha decisão. E consegui: trouxe Janaína comigo: é aquela morena linda que está conversando com aquele casal.

     

    “Final feliz...”

     

    - Dizem que se uma coisa não está bem, é porque ainda não acabou. Eu discordo não acredito em finais. O único final, para mim, é a morte. Acho que iniciamos uma nova fase. Foi muito difícil para ela. E agora... Agora uma vez por ano vamos passar um mês na vila dela. Não negamos o nosso passado.

     

    Negar o passado... Acho que foi uma indireta.

     

    (continua no penúltimo post desta série: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 15h51
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    O homem que não tinha passado (PARTE 47)

    (este conto começa aqui)

     

    Após tanto encher o saco com as pessoas, fazendo perguntas sem fim para que a vida deles suprisse a minha total falta de vida, achei um cara que, antes de tudo, me reconheceu como amnésico. Mas, mais do que isso: tinha sido amnésico. E a história dele, convenhamos, era muito mais interessante que a minha. Afinal, a dele tinha amor.

     

    - Eu me apaixonei. Por uma pescadora morena linda, chamada, claro Janaína. Tudo a ver com aquela vila de pescadores em que eu estava vivendo.

     

    Vou fingir que entendi a referência a Janaína. Afinal, não quero interrompê-lo.

     

    - Vivemos uma paixão daquelas. Eu não lembrava quem eu era antes de surgir naquela praia como uma entidade, como alguém totalmente alienígena. Mas a partir do momento que nossa relação começou, eu passei a me sentir como se lá fosse meu lugar, como se tudo o que eu tivesse vivido antes da amnésia, fosse lá o que fosse, não fazia a menor diferença. Aquele era meu lugar, aquela era a minha mulher, aquele era eu.

     

    “E?”

     

    - Eu estava errado, é claro. Não se pode apagar a nossa identidade assim.

     

    “E como você se lembrou?”

     

    - Não foi exatamente me lembrar. Eu tive três pesadelos. Foram dois meses entre um e outro, aproximadamente. E, veja como é a mente humana, eu sonhei não com a minha mulher, com meus amigos, ou com algo assim. Nos meus pesadelos, eu revivi os três piores momentos da minha vida.

     

    “Putz.”

     

    - Foram sonhos perturbadores, horríveis mesmos. E, quando acordava, não me lembrava claramente deles. Via lampejos. Frações do pior que havia visto e sentido na minha vida anterior. E foi esse pior, esses sentimentos tão ruins, que me fizeram perceber que havia algo errado.

     

    “E o que você fez?”

     

    - Depois do terceiro pesadelo, me lembrei. Não da minha vida inteira, mas do aspecto geral dela. Eu era casado com outra mulher. Na verdade, naquele momento eu era bígamo, tinha dois nomes e dois empregos. Eu era duas pessoas em uma. E tinha que decidir: mantinha essa identidade nova, abandonando a anterior, ou o contrário?

     

    (continua no post de quinta, dia 14: aqui [com um dia de atraso])



    Escrito por Dimas Klen às 00h48
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    O homem que não tinha passado (PARTE 46)

    (este conto começa aqui)

     

    - E então? Você acha que você era infeliz?

     

    “Você anda perguntando muito para alguém que não se lembra das respostas, não acha?”

     

    - Hehehe.

     

    “Afinal, como você reconheceu o... meu estado?”

     

    - História longa.

     

    “Vamos combinar que eu tenho tempo...”

     

    - OK, versão resumida. Já passei por isso. Anos atrás. Era casado, tinha emprego, uma vida burocrática, mas boa. E estava em um pequeno avião sobre o Nordeste brasileiro. O avião caiu... Nadei por horas, mas sobrevivi estafado. Quando cheguei à praia, desmaiei. Delirei por horas, entre um misto de sono e desmaios. Quando acordei, estava cercado por uma tribo de pescadores. Haviam me recolhido na praia e me levado até lá. E eu não sabia mais quem eu era.

    ...

     

    - Me trataram como um novo morador de lá. Me deram casa, comida – peixes, claro – e me ensinaram como era o modo de vida lá. Quase não havia energia elétrica. A cidade era uma vila pequena, no meio das dunas de areia. Como venta muito, a cada período de anos a areia começa a cobrir as casas, então eles reconstroem as casas em outro lugar. É quase uma cidade móvel. Há uma televisão, colocada no meio da praça por algum político em busca de votos, que está sempre desligada. Parece um monumento guardado dentro de uma espécie de altar.

     

    ...

     

    - Não havia cultos na igreja, embora as pessoas fossem religiosas. A igreja era a única construção forte lá. A cidade era reconstruída ao redor dela, como se ela fosse o centro da vila. Quase uma metáfora de muitas sociedades, para ser sincero. Mas ela estava sempre trancada. Só abria para receber o povo uma vez por semana a cada nove meses, quando um padre ia lá realizar casamentos, batizados e unções dos enfermos.

     

    ...

     

    - Não havia dinheiro. Afinal, dinheiro para que?

     

    !!!

     

    - E eu, sem me lembrar quem era, fui rebatizado e passei a viver como um deles. Pescava, ajudava os outros, trabalhava quando tinha que trabalhar. E, é claro, me apaixonei. Afinal, não há história sem amor, há?

     

    (continua no post de quarta, dia 13: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 10h17
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    O homem que não tinha passado (PARTE 45)

    (este conto começa aqui)

     

     “O que pode ser pior que descobrir que eu sou mau, que fiz mal às pessoas?”

     

    - Você pode ser um infeliz que caiu na rotina. Acorda, trabalha, estuda, transa, dorme. Não tem sentimentos, não tem aventuras, não tem perspectivas. Foi levado pela vida e não se importou. Resignou-se a passar o tempo aqui na Terra.

     

    Ups, não pensei nisso.

     

    - "Cada um coloca sua pedra no edifício e, sua tarefa feita, desaparece. A eternidade nos precede, a eternidade nos segue: entre dois infinitos, que é o lugar de um mortal?" Isso dizia Proudhon no século passado. Pouca gente tem noção disso, mas, entre eles, ainda menos pessoas se dão o trabalho de tentar aproveitar esse átimo de tempo. O que você está passando pode ser um drama, mas também pode ser uma aventura. A sua chance de ser diferente. O dia em que você tentou viver.

     

    O dia em que eu tentei viver.

     

    - O que você achou desse dia?

     

    "Não sei, é difícil dizer. De fato, tentei viver. Tentei descobrir quem eu sou. Tentei descobrir se valia a pena descobrir quem eu sou. Por que eu tenho que ser alguém?"

     

    - É uma pergunta retórica ou você quer uma resposta?

     

    "Você tem a resposta?"

     

    - Não, mas tenho mais perguntas.

     

    "Pode falar."

     

    - Por que você tem de ser alguém? E dá para você tentar não ser alguém?

     

    "Dá para eu tentar não ser eu mesmo."

     

    - E a que isso te levaria?

     

    "Não sei, não lembro quem eu era. Mas talvez me levasse a ser mais feliz."

     

    - Você acha que você era infeliz?

     

    Passei o dia inteiro enchendo o saco das pessoas fazendo perguntas. Esse cara é a vida me dando o troco...

     

    (continua no post de terça, dia 12: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 22h14
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