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    Kontos
     


    O homem que não tinha passado (PARTE 44)

    (este conto começa aqui)

     

    Eu me meti numa mesa de bar com um monte de gente que não conheço, e aí me aparece esse cara, do nada, e me pergunta há quanto tempo estou com amnésia. Como diabos ele percebeu?

     

    “Como?”

     

    - Eu já passei por isso. Você acha que não é fácil para alguém que já viveu essa experiência reconhecer outro amnésico?

     

    Cara, isso é simplesmente inacreditável. Nem quando eu deixo de ser quem eu sou, viro um não-eu, alguém sem passado nem nada, não me torno único. Sempre tem alguém igual a mim, o que consegue se identificar comigo.

     

    “Desde que acordei.”

     

    - E você não se lembra de absolutamente nada? Seu nome, o que você fez ontem, se você já passou por isso antes?

     

    “Nada.”

     

    - E o que seus familiares falaram?

     

    “Não sei, não encontrei nenhum deles.”

     

    - Você mora sozinho?

     

    “Não sei, acordei em um hotel e não encontrei ninguém conhecido desde então.”

     

    - E por que você não quis descobrir quem você era?

     

    “Quem disse que eu não quis?”

     

    - Ora, convenhamos, se você se apresentar a uma delegacia, quanto tempo você acha que eles vão demorar pra encontrar seus pais, sua esposa, seus vizinhos, sei lá quem?

     

    Ups.

     

    - Você nem pensou nisso, não é?

     

    “Não mesmo.”

     

    - Você está gostando dessa situação, não é?

     

    “Não sei, acho que sim.”

    - É uma situação até certo ponto cômoda, se você não sentir medo.

     

    “Medo? Por que eu sentiria medo? E por que cômoda?”

     

    - As pessoas costumam temer o desconhecido. Você não sabe quem é ou o que fez para estar assim, portanto pode ser um criminoso. Ou pior.

     

    Esse cara está tentando me assustar ou é impressão?

     

    (continua no post de segunda, dia 11: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 10h01
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    (este conto começa aqui)

     

    OK, já percebi que estava evitando encarar minha amnésia e tentar descobrir quem eu sou. Que ficava desviando-me do meu caminho para ouvir outras histórias, outras pessoas, outros tudo, em vez de olhar para mim.

     

    Mas vi aquele cara sentado, sozinho, num bar no meio da avenida Paulista, e não resisti. Sentei para puxar conversa.

     

    Poderia dizer que sentei porque estava com pena da solidão dele, ou porque me identifiquei com ele, um homem sozinho na multidão. Mas era fuga mesmo, não posso negar.

     

     “Boa noite, companheiro.”

     

    - Opa, e aí, tudo bem?

     

    “Perfeito, e você?”

     

    - Na boa.

     

    Merda, voltamos à esatca zero: estamos sem assunto.

     

    “Está esperando alguém?”

     

    - Sim. Mas que merda..

     

    “Merda?”

     

    - Não, não é isso. Quero dizer, marquei com um monte de amigos do meu antigo emprego aqui e não chegou ninguém. Merda.

     

    “Será que deu algum pepino lá e eles tiveram que ficar até tarde?”

     

    - Acho que não. Ei, olha aí, quem chegou!

     

    E, de repente, começou a chegar um monte de gente. Pô, não sabia que tinha tanta gente assim em São Paulo, não é possível, deve ter gente vindo de outras cidades também.

     

    Acabei me desinteressando pelo papo. Realmente, não tava conseguindo entender nada, era aquele papo cifrado de quem se conhece há pelo menos três encarnações e meia, ou que parece que se conhece há tanto tempo assim. Fiquei entretido com uma garrafa de cerveja que brotou na minha frente, nem vi de onde. Provavelmente já derramaram tanta cerveja nessa mesa que agora ela já nasce por geração espontânea.

     

    E também não conseguia me enturmar. Não queria dar opinião de nada pelo simples fato de que não sabia a minha própria opinião. Não conheço a minha história, não sei qual a minha relação com este ou aquele tema, como ele já afetou a minha vida, se é que afetou.

     

    Fiquei na minha, tentando ver se, caso eu me concentrasse bastante, conseguiria fazer outra cerevja brotar da mesa. Aí veio um cara meio de lado, me puxou  pelo ombro e me fez um sinal com o queixo para eu segui-lo.

     

    - Há quanto tempo você está com amnésia?

     

    (continua no post de sexta, dia 8: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 12h40
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    O homem que não tinha passado (PARTE 42)

    (este conto começa aqui)

     

    Fui caminhando a esmo na avenida Paulista - que é uma coisa que eu descobri que curto fazer - e eis que me encontro em um lugar chamado Prainha. Sem piadinhas com o fato de haver um lugar em São Paulo, a uma hora do mar, chamado Prainha, por favor. Já não chega a inveja que a gente tem do Rio. Bom, dei uma lenta olhada em volta e achei uma figura interessante: um cara sentado, sozinho. Ele me parecia muito triste - mas, até aí, toda pessoa que está sozinha me parece triste. Será projeção? Desta vez, não pensei, agi. Não porque o professor do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” estava certo e o negócio é aproveitar o tempo, ou porque se você não tiver uma boa desculpa para não fazer, vá lá e faça. Mas porque eu estava sozinho.

     

    A verdade é essa. Eu estava sozinho. Estava começando a ficar cansado desse negócio de ficar andando de lá para cá, tentando me descobrir sem fazer esforço algum. Evitando me encontrar. Fugindo, evitando. Inventando pequenas coisas para me distrair, conversando com pessoas, me distraindo, em vez de ir direto ao ponto.

     

    Nasci mais sozinho do que todo mundo. Em vez de um quarto de hospital, fui parido em um quarto de hotel. Não tive parteira, obstetra, pai. Nem mãe. Já nasci adulto. Já nasci sabendo. Na adolescência, o jovem normal se rebela, começa a se separar dos pais e entrar nos modos e comportamentos dos da sua geração. Durante alguns anos, porém, em que ele está atravessando essa mudança, ele se sente sozinho. Estranha a si próprio. Sente-se incompreendido, daí rebelde. Procura alguém em quem se apoiar, daí os ídolos. Ou algo, daí as drogas. Ou o sexo, os livros, a televisão.

     

    Embora recém-nascido, e portanto um bebê, eu estou perdido, em transição, estranhando meu corpo e meus atos, procurando por algo ou alguém que eu não sei quem ou o quê é. Um adolescente, portanto. Mas com um corpo já de adulto. Bebê, adolescente, adulto. Sozinho, daí sentar-me na mesa daquele cara que eu nem conhecia e certamente estranharia a minha presença.

     

    (continua no post de quinta, dia 7: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 00h11
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    O homem que não tinha passado (PARTE 41)

    (este conto começa aqui)

     

    Meu amigo escritor está contando a história do tal Eldrox, que ia viajar, mas não foi, e ficou sozinho por alguns dias.

     

    Eu estou sozinho há algumas horas e já fico puxando assunto com pessoas que não conheço...

     

    - A família ia viajar. Prompt, seu irmão, convenceu Eldrox a ficar. Na hora de viajar, entretanto, o Prompt viajou. Eldrox nos contou que na noite de ir embora ele teve um sonho em que ele estava preso em um elevador. Trancado, no escuro, sem celular, sem interfone, sem nada. E ele começou a gritar, a chorar e a amaldiçoar sua vida. Eu já te disse: o Eld é abstêmio, antitabagista e extremamente tímido

     

    Até aí eu não sei quem eu sou e não vou pré-julgar um cara pelo o que dizem que ele é.

     

    - Aí, ele disse que perdeu o controle. Encontrou essa tal mulher, a Tana, e se apaixonou por ela. Ele, que nunca tinha tido ninguém que realmente gostasse dele, encontrou aquele mulherão que estava, aparentemente, apaixonada por ela.

     

    Ih. Aí tem.

     

    - Mas algo aconteceu. Depois de alguns dias de paixão tórrida, ele a flagrou com outro.

     

    Merda. Coitado.

     

    - Eu não entendi direito. Parece que ela é, ou era, prostituta, e estava escondendo isso dele. Quando ele descobriu, pirou. Na verdade ele já estava meio fora de si. Não sabia o que fazer com aquela paixão. Nunca havia sentido nada assim. O namoro anterior dele parecia qualquer coisa, menos um namoro. E vem aquela mulher do nada, toda carinhosa... Ele se perdeu.

     

    “Certo...”

     

    - E aí ele descobriu isso. Misturou paixão, ciúmes e o sentimento de traição, por ter descoberto como descobriu. Resultado: ele, da noite para o dia, virou um junkie. A versão masculina e de carne e osso da Rê Bordosa...

     

    Grande Rê Bordosa. Se ela existisse, adoraria tomar umas com ela. Personagem hilária!

     

    - Pouco tempo depois, ele foi parar no hospital. Misturou muito pó com muita bebida. Sobreviveu, mas...

     

    “Mas?”

     

    - ...que o pariu! Olha a hora! Eu tenho que sair! Desculpa, mas eu vou nessa! Ó, pega meu cartão e me liga, hein? Tchau!

     

    E lá se foi o futuro orgulho da dramaturgia brasileira. Gente fina.

     

    E agora? Vou encher o saco de quem? É tão mais fácil encher o saco de alguém do que tentar resolver seus próprios problemas, já reparou?

     

    Na minha situação, então... Tentar curar minha amnésia e descobrir quem eu sou, voltar para casa ou... Pegar um pobre coitado a dedo e ficar ouvindo o cara falar e tirar um pouco de sarro dele!  Adivinha qual opção eu escolhi?

     

    (continua no post de quarta, dia 6: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 00h22
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    O homem que não tinha passado (PARTE 40)

    (este conto começa aqui)

     

    Não sei quem eu sou. Até aí, também não sei o nome do cara com quem estou conversando. Nos encontramos na rua e viemos parar aqui num café. Quem  é carente? Eu? Hehe. Pode apostar nisso.

     

    - O que você achou dessa “I Will Survive”?

     

     “Eu diria até que eu me identifiquei com ela.”

     

    - Quem não se identifica nos dias de hoje?

     

    Na verdade, eu não me identifiquei literalmente, mas isso não dava para explicar. É como se eu mesmo estivesse dizendo “enquanto eu souber como amar eu sei que eu estarei vivo. Eu tenho toda a minha vida para viver. Eu tenho todo o meu amor para dar. Eu vou sobreviver.”. É como se a música fizesse muito sentido para mim e eu fizesse muito sentido para ela. Nós dois nos complementaríamos. E o engraçado é que eu não estou sobrevivendo, mas vivendo. Não tenho vida anterior a esta, não tenho nada. Só o que eu sou e estou aqui e agora. E, egocentrismo à parte, já é mais do que suficiente.

     

    - Agora, voltando para a história do Eldrox. Ele continuou cantando até que uma hora ele a mina levantaram e foram embora. Só no dia seguinte ele explicou para a gente o que foi que aconteceu.

     

    “E foi o seguinte...”

     

    - E foi o seguinte: quando a família dele decidiu viajar, ele e o Prompt resolveram não ir junto. Afinal, viajar com os pais é um saco, gente da nossa idade quer mais mesmo é ficar entre os seus “próximos”, ou seja, entre quem também está descobrindo o amor, a maconha, a camisinha, o rock`n`roll, a poesia do mundo inteiro e o cinema que é produzido fora dos Estados Unidos. Mas, na última hora, o Prompt terminou com a menina dele e resolveu ir com os pais. O Eldrox ficou inconformado. A justificativa do seu irmão foi que se ele ficasse parado, encostado em um canto, ou mesmo saindo com a gente como se nada tivesse acontecido, ele jamais aceitaria sua nova condição de solteiro e partiria para procurar uma nova garota. Foi uma decisão madura, na minha opinião. O próprio Eldrox, por exemplo, tinha terminado com a menina dele uns 15 meses antes e ainda não tinha voltado a sair com uma mulher. Ele ainda não havia despertado um belo dia, posto os pés nus no chão frio, coçado o cabelo despenteado e percebido a grande máxima da sociedade contemporânea: “mulheres, vocês existem!”. Ele tinha ficado meio que resignado no seu canto. Ele não só parecia querer que uma mulher aparecesse do nada no seu apartamento e lhe dissesse “oi, vim namorar você” como parecia exigir que ela ligasse antes avisando que vinha.

     

    É, esse é mais um companheiro pra turma do Mano-que-disse-tchau-antes-de-dizer-oi e do Cara-que-definiu-a-tristeza-como-um-bumerangue. Porque por esse tipo de tristeza só passaram eles e a torcida da seleção brasileira. Quem não passou por isso?

     

    Será que eu passei por isso e não lembro? Certamente...

     

    (continua no post de terça, dia 5: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 09h57
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