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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Livros



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    Kontos
     


    O homem que não tinha passado (PARTE 39)

    (este conto começa aqui)

     

    Não sei quem eu sou. Amnésia.

     

    Não sei o nome do cara com quem estou conversando. Desleixo.

     

    Simplesmente nos encontramos na rua, ambos precisando conversar, e viemos parar aqui num café. Eu o chama de William porque ele é escritor... De “William Shakespeare”. Tá, nada original. E quem eu sou para sair por aí “batizando” os outros?

     

    Adoraria saber.

     

    - Sem humildade nenhuma, eu posso dizer que eu também funciono meio que como o centro dessa Rosa dos Ventos. Eu que agito as saídas, o futebolzinho de sábado, as idas ao cinema, as vaquinhas para comprar os presentes de aniversário. Aliás, há dois anos que eu não ganho presente porque essa moçada acéfala se esquece qual é a minha data.

     

    “Amigo é pra essas coisas!”

     

    - Nem brinca, essa é a minha música predileta, me explica muita coisa e me conforta sempre.

     

    Música? De que música ele ta falando?

     

    - Aliás, o simples fato de eu saber que eles existem já é um consolo. Por maior que seja a merda que esteja me acontecendo, o fora que a menina esteja me dando, eu sempre penso, “bom, já tenho com o que divertir a moçada na próxima sexta no Riviera”. Mesmo indiretamente eles estão sempre comigo.

     

    Caiu no lugar-comum. Preferia quando ele estava falando da rosa dos ventos, que cada um aponta pra uma direção diferente, mas mesmo assim estão sempre unidos. Gostei da analogia.

     

    - Enfim, eu falo “nós” e não “eu” quando estou contando essa história porque nós conversamos várias e várias vezes sobre esse episódio para tentar entendê-lo e todos sentiram a mesma coisa. Aliás, as mesmas coisas. Enfim, uma hora ele cansou de acariciar a cabeça dela e começou a falar. “Eu não morri, querida.” E cantarolou: “At first I was afraid, I was petrified. I kept thinking I could never live without you by my side.” Você fala inglês?

     

    “Nem.”

     

    - Então vou fazer uma tradução aproximada. Ah, é uma música da Gloria Gaynes, que aparece no filme “Priscila, a Rainha do Deserto”. Diz assim: “No início eu estava com medo, estava petrificado. Eu fiquei pensando que eu não poderia jamais viver sem você ao meu lado. Mas então eu passei tantas noites apenas pensando em como você me fez mal. Fiquei mais forte. Aprendi como continuar.”

     

    Letra bem legal, essa. Tem um quê de Paulo Coelho, Lair Ribeiro, uma coisa “você quer, você pode, você faz”, mas é bem legal. É meio que um misto de depoimento com desabafo. Parece que o cara estava entalado com coisas para dizer para a ex-patroa e uma hora não agüentou mais segurar a pressão e soltou tudo de uma vez.

     

    - “E então você está de volta. Eu acabei de entrar e te encontrei aqui, sem aquele olhar no seu rosto. Eu deveria ter mudado a porra da minha fechadura. Eu teria feito com que você tivesse deixado a sua chave se soubesse ao menos por um segundo que você voltaria para me incomodar.”

     

    Gostei...

     

    - E o refrão diz assim: “Ah, agora vá. Passe por aquela porta. Vire-se agora. Você não é bem-vinda aqui nunca mais. Não foi você quem tentou me quebrar com desejo? Você achou que eu iria me desfazer em pedaços? Você achou que eu iria deitar e morrer? Ah, não. Não eu. Eu vou sobreviver. Enquanto eu souber como amar, eu sei que eu estarei vivo. Eu tenho toda a minha vida para viver. Eu tenho todo o meu amor para dar. Eu vou sobreviver. Eu vou sobreviver.” 

     

    (continua no post de segunda, dia 4: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 00h00
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    O homem que não tinha passado (PARTE 38)

    (este conto começa aqui)

     

     “William Shakespeare” brasileiro, meu amigo escritor que de William Shakespeare não tem nada, é só brasileiro, está me contando de uma história de amizade, confiança... e culpa.

     

    Como é difícil ser amigo de alguém. Não “colega”: amigo de verdade.

     

    - É lógico que ele tem direito à sua privacidade. Pode passar um mês ou quantos ele quiser longe da gente. Eu só acho que ele poderia dizer por que queria distância da gente, onde é que estaríamos errando com ele. Para que não repetíssemos o erro.

     

    Lógico.

     

    - Ao mesmo tempo, não foi isso o que incomodou. Foi a gente perceber, naquele momento, com aquela estranha chorando desesperada no colo dele, que nós tínhamos sido passados para trás. Tudo bem, mesmo que ele prezasse seus novos amigos mais do que a gente, e não há mal nenhum nisso, a gente queria estar por perto só para acompanhar, para torcer por ele, fazer companhia, ajudar em todos os sentidos, financeiramente inclusive. Porra, o cara entrou um coma, não é que ele foi obturar uma cárie.

     

    ...

     

    - E nós ficamos ali, assistindo àquela cena, sem entender. E queríamos, mais do que tentar consolar a menina, ouvir as explicações dele. Sim, foi egoísmo da nossa parte, mas nós não estávamos nem aí para ela. Nós nos sentíamos traídos.

     

    “Engraçado que você está contando a história do seu ponto de vista, mas conjuga os verbos na primeira pessoa do plural.”

     

    - Sim. Embora pareça pretensioso, e de fato talvez seja, a gente se conhece tanto que podemos dizer... A gente se conhece. Deixamos de ser oito há muito tempo, viramos um só. Uma rosa dos ventos, na verdade. Como nós somos muito diferentes uns dos outros, cada um aponta sempre numa direção, tanto nos esportes, como nas artes e até nos nossos comportamentos. E o centro dessa rosa dos ventos é a nossa amizade, o respeito que nós temos uns pelos outros e, principalmente, pelas nossas diferenças. É isso que nos mantém unidos.

     

    Será que eu pertenço a uma rosa dos ventos como essa? Será que eu dou tanta importância assim a meus amigos? Será que algum amigo meu, ou qualquer outra pessoa, não importa quem, se importa assim comigo?

     

    (continua no post de sexta, dia 1: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 23h06
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    O homem que não tinha passado (PARTE 37)

    (este conto começa aqui)

     

    Meu amigo escritor, a quem eu batizei de “William Shakespeare” brasileiro, está me contando de um mistério a respeito de um de seus melhores amigos.

     

    Como não tenho nada mais importante a fazer, como descobrir meu nome real, onde moro etc., estou adorando ouvir.

     

    - Ela veio do nada, pulou em cima dele, abraçou-o e começou a chorar compulsivamente. E gritava “por que você não me ligou? por que você nunca me ligou de volta? eu achei que você tinha morrido! eu achei que você tinha morrido!”. Ninguém entendeu nada, obviamente. Quem era aquela mina abraçada a ele, beijando-o no rosto e na boca daquele jeito? Onde ele a conheceu? Ele não a conhecia antes das férias, isso é certo. Nós conhecíamos todos os amigos dele. Então, como é que eles ficaram íntimos tão de repente? Qual era relação entre eles? O que ela quis dizer com “eu achei que você tinha morrido!”? O que tinha acontecido com nosso amigo? Logo ele, que ainda por cima era o mais tímido da turma, com um mulheraço daqueles se jogando em cima dele, chorando por ele.

     

    Com todo respeito, William, os tímidos também têm direito à sua porcentagem.

     

    - Ele não falou nada na hora, mas o que deu pra entender é que... Bom, o que era mais estranho é que ela ficava olhando os braços deles, beijando os braços dele, e chorando “você parou, ainda bem! ainda bem!”. Aí ela falava que tava feliz que ele tava bebendo guaraná e não estava fumando. Meu, ele era abstêmio e anti-tabagista, aqueles comentários não faziam o menor sentido. E ela falava tanta coisa ao mesmo tempo que era difícil entender, mas o que a gente pescou é que ele tinha tomado uma overdose de heroína e ido pra UTI em coma! Cara, você sabe o que é isso? Um cara que nunca tinha sequer fumado maconha ir para a UTI por over de heroína? E, se ele tinha ficado tão mal, por que ele não chamou a gente? E, mesmo que a gente tivesse feito algo contra ele e ele estivesse chateado conosco, o que certamente não era o caso, nós jamais deixaríamos de ajudá-lo em um momento daquele. Mas sabe o que é pior?

     

    Eu me recusei a responder porque era mais do que óbvio que ele contaria mesmo que eu dissesse “não e não faço a menor questão de saber”.

     

    - Por que ele não contou nada pra gente? Cara, a gente se amava. Não éramos uma família, éramos amigos, no sentido visceral da palavra. Estávamos juntos para ir ao cinema ou ao hospital, a uma igreja ou a um cemitério, para viajar ou para fazer companhia enquanto o outro esperava o ônibus. Por que ele não falou nada para a gente?

     

    O que quer dizer com “ser amigo no sentido visceral da palavra”?

     

    - Se ele ou qualquer outro da turma pedisse, nós tocaríamos o puteiro no Céu ou rezaríamos uma missa no Inferno. Transaríamos 15 vezes em um dia ou passaríamos o resto da vida cumprindo voto de celibato. Nunca deixaríamos nenhum dos nossos para trás, como até hoje não deixamos.

     

    OK, OK, acho que já entendi o que é “amizade em seu sentido visceral”...

     

    (continua no post de quinta, dia 31: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 08h50
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    O homem que não tinha passado (PARTE 36)

    (este conto começa aqui)

     

    Será que agora, finalmente, eu iria ouvir o que meu amigo escritor, a quem eu venenosamente batizei de “William Shakespeare” brasileiro, tem a dizer? Posso não saber quem eu sou, da onde eu vim ou para onde vou, mas estou com pressa.

     

    Mentira, não estou com pressa. Só sou chato.

     

    “Amigo teu, William?”

     

    - Um bom amigo. Chamamos ele de Eldrox. Sabe, quando a gente era adolescente, tínhamos um grupo bem ligado. Fizemos o colegial e o cursinho juntos: eu, ele, mais dois caras, três meninas e o irmão dele, o Prompt, que era mais novo e saía com a gente. Nós nos conhecíamos tanto que todos nós sabíamos tudo da vida um do outro, quem saía com quem, quem gostava de quem, quem já tinha visto este filme ou lido aquele livro, nada era segredo, muito pelo contrário. Coisa de família mesmo, sabe?

     

    Na verdade, não. Nem imagino se tenho família. Não deu tempo nem de eu concordar com aquela mexidinha no queixo, a cara tava falando como um louco. Ser escritor é: não parar de contar história. Literalmente.

     

    - Aí chegou julho no ano em que prestaríamos vestibular. A família dele viajou, mas o resto da turma continuou a se encontrar com freqüência. Quando a família voltou, marcamos uma saída com toda a turma. Aí, no meio da conversa, o Prompt conta que o Eldrox não tinha viajado com eles. Aí ficou aquele bafafá na mesa: por que ele não viajou? Onde ele ficou todo esse tempo? Muito mais importante do que isso, por que ele não nos procurou? Sentíamos-nos traídos. Ele ocultou uma parte da vida dele pra gente, ignorou-nos.

     

     “E por que ele não viajou, pô?”

     

    - Ele não respondeu na hora, mas cruzou os braços, que era o nosso "sinal" de que não queria falar no assunto. Deixamos barato. Mas, depois que o Prompt foi embora, lá pelas quatro da manhã, voltamos a pressioná-lo. E ele não abria a boca. Até que lá pelas sete horas, quando a gente tava saindo do bar pro tomar o café da manhã e encerrar a noite na Casa do Padeiro, eis que surge uma menina do nada, que a gente não conhecia e nem tinha ouvido falar. Ela era linda, mas linda mesmo. Tinha os olhos azuis, o cabelo bem preto e lembrava bastante a menina da Embratel, qual é o nome mesmo?

     

    “Ana Paula Arósio.”

     

    - Isso aí!

     

    Nome de mulher é a única coisa que eu não esqueço?

     

    (continua no post de quarta, dia 30? aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 22h42
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    O homem que não tinha passado (PARTE 35)

    (este conto começa aqui)

     

    E ele, o escritor, perguntou a mim, o cara com amnésia e crise de identidade, qual era o meu tipo de ambiente, onde eu me sentia à vontade. Responderia com prazer, se me lembrasse.

     

    Aliás, estou começando a me sentir incomodado de não me lembrar de nada, de não saber nada a meu respeito.

     

     “Pra um escritor você tá muito a fim de ouvir histórias em vez de contar, não tá, não?”

     

    - É que eu tenho um sério problema: toda vez que eu começo a contar uma história eu não paro nunca. Por isso eu deixo sempre o meu “interlocutor” sair na frente: é pra ver se ele consegue falar por pelo menos cinco minutos, que os 50 minutos seguintes certamente serão meus.

     

    “Pois eu passo a vez dos meus cinco minutos. Não quero ser grosso, William, mas eu não gosto de falar de mim.”

     

    A verdade é: não tenho a menor idéia do que falar de mim. Eu já ouvi falar de gente que não se conhece, mas o meu caso é um espanto. Eu estou me sentindo tão estranho hoje que parece que tudo o que eu falar hoje pode ser mentira. Ou virar mentira amanhã. Ou ter sido mentira ontem. Meu presente é totalmente dubitável. O quê ou quem eu fui ontem não tem a menor relação com o que ou quem eu sou hoje. Não tenho memória e, talvez por isso, não tenho identidade. Meu presente não é duvidoso: é imprevisível. Meu passado é inédito até para mim mesmo. Meu futuro...

     

    E por que será que eu chamei o cara de William?

     

    - Só um instantinho.

     

    Agora foi a vez do William ir ao banheiro. Ah não, parou para cumprimentar um cara que ele reconheceu. Abraço, tapinha nas costas, certo, certo. Mas onde eu tinha parado mesmo? Ah, eu tentava conjugar o verbo “liberdade” com o sujeito “identidade”. 

     

    Não é que o presente ou o futuro de alguém seja previsível. Óbvio que não. Mas se você tem uma rotina, tem a sua identidade, sabe quem é, porque está acordando a tal horas, porque está indo fazer isso ou aquilo, em que vai gastar o seu salário, que tipo de roupa vai vestir, qual comida gosta. Mas ter identidade não significa ter liberdade. A opção de não fazer isto ou aquilo pode dar tamanha incerteza que jamais tentará fugir do seu roteiro, de não almoçar naquele lugar, de preferir ir conhecer uma cidade do interior a outro domingão típico com a família. Mesmo que a pessoa seja rica e feliz, acredito que se ela se prender à rotina é como se ela lesse um livro bom mas não fizesse anotações nas margens, não refletisse sobre ele. É como se ela não participasse...

     

    Olha, o William voltou. “William Shakespeare”, em versão brazuca. O escritor que não conta nada, só pergunta.

     

    (continua no post de terça, dia 29: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 00h13
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