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BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Livros



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    O homem que não tinha passado (PARTE 1)

    Acordei de mau-humor, com o Sol batendo na minha cara. Levantei, olhei bem pro lençol que me envolvia, pra cama... é, decididamente aquele não era meu quarto. Onde é que eu tava? Levantei, entrei no banheiro e me vi no espelho... é, decididamente aquele não era meu rosto. Pô, quem eu era? É isso aí. Tentei lembrar meu nome... É, decididamente aquele não era meu dia. E aquele não era eu.

     “Amanhecer”, tava escrito na toalha. O sabonetinho da pia era recoberto com um papelzinho de seda com a mesma palavra: “Amanhecer”, com o “A” em maiúscula. Aquele era um hotel com um nome babaca. “Amanhecer”. Um hotelzinho, a julgar pelo tamanho do quarto. E pela descarga do banheiro, que não funcionava. E pelo hóspede, fosse eu quem eu fosse.

    Voltei para a cama e comecei a procurar coisas em volta. Um livro, uma carteira, qualquer coisa... Não que eu tivesse a fim de ler alguma coisa ou de descobrir quem eu era pelo meu RG, é que eu realmente não tinha nada para fazer. No criado-mudo, só uma Bíblia Sagrada com uma maço de cigarros em cima. Fiquei feliz com o maço, mas depois eu lembrei que eu não sabia se fumava ou não. Joguei o maço e a Bíblia fora. Depois eu lembrei que eu não sabia se era religioso ou não. Catei a Bíblia para passar o tempo. Fiquei jogando ela de uma mão para a outra - e sem deixar cair no chão nenhuma vez. Eu sou bom pra cacete nisso. Pena que qualquer criança com mais de três anos ou pelo menos dois neurônios também faça isso.

    Cansei da Bíblia e a joguei de volta no lixo, mesmo não sendo minha, sendo do hotel. Só de birra. Aproveitando que tava lá, fiquei olhando pro lixo e peguei o maço de cigarro de volta. Afinal, não é costume de hotel deixar cigarro nos quartos - o que seria 150 vezes mais útil do que uma Bíblia, já que há mais fumantes do que leitores da Bíblia no mundo. Acho.

    Catei o maço para passar o tempo. Fiquei jogando ele de uma mão para a outra - além de não deixar cair, ainda fiquei inventando piruetas, já que é muito mais fácil brincar com um negócio que cabe na tua mão do que com um livro que parece um tijolo.

    Mas... Será que o cigarro era meu? Não tava com a menor vontade de enfiar aquele bastonete cancerígeno na boca. Será que era de alguém que tava dormindo comigo? A cama era de casal. Será que foi alguém que trepou comigo e foi embora? Ou será que eu tenho uma namorada? Não uso aliança no dedo, mas pode ser que eu seja um namorado firme, sério, com direito a flor a cada ano de namoro e tudo. Ou será que eu tenho um namorado? Posso ser gay, por que não? Deixa pra lá. Abri o maço: nove cigarros e... Um fino! Merda! Não sei seu eu fumo maconha ou não. Sei lá, de repente é do cara que tava no quarto antes de mim. Hotelzinho vagabundo, não deve nem arrumar o quarto entre um hóspede e outro...

    Botei um cigarro na boca, guardei o maço na gaveta do criado mudo e saí à cata de um isqueiro. Ou de qualquer outra coisa, afinal. Não sabia nada, não lembrava nada, não tinha nada. O que vier é lucro.

     

    (continua no post de domingo, dia 6: aqui)



    Escrito por Dimas Klen às 11h06
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    O homem que não tinha presente (DIA 7)

    (este conto começa aqui)

    Parte 23

    Helena apareceu sozinha. Ninguém a reconheceu, exceto Armando.
    - Lena? Graças a Deus!
    Abraçou a amiga.
    - E Linda?
    - Ela não vem, Clodomiro.
    - Por que não?
    - Sinto muito, Dimas. Ela já não estava mais viva quando tudo isso começou. Tomou o seu caminho. Sinto muito mesmo.
    - A gente não pode fazer nada por ela?
    - Nós fizemos, Dimas. Ajudamos Linda a se libertar. Não é pouco.
    Dimas segurou as lágrimas e acendeu duas velas. Tudo se repetiu, mas desta vez, as velas demoraram para se apagarem.
     
    Parte 24

    Anadyr ressurgiu triste, mas altiva e confiante, bem diferente da mulher que havia entrado na casa trazida por Arnaldo e Clodomiro. Já Arnaldo estava cabisbaixo, com as mãos no bolso, e não tirava os olhos do chão.
    - Você está bem, Arnaldo?
    - Estou, Clodomiro. Obrigado.
    Era nítido que não estava. Deixou o círculo sem cumprimentar ninguém. Caminhou até a janela e finalmente levantou os olhos. Parecia estar olhando fixamente para alguma coisa fora da casa.
    - E você, Anadyr?
    - Bem, Clodomiro. Obrigada. Obrigada por tudo.

    Parte 25

    Dimas foi o único que não deixou a casa. Não podia parar de pensar em Linda. Ela estivera morta, e ele a reencontrara apenas para não a ver mais.
    Pensou em Maria Regina e Diego, que foram tentar uma segunda chance, ou pelo menos conversar. Em Helena, que desistira de ser invisível, e na alegria de Armando. Era óbvio que ele sentia algo por Helena e que, mesmo que jamais viesse a ter nada com ela, estava feliz por voltar a tê-la como amiga.
    Clodoaldo e Pitu também pareciam bem. Na verdade, pareciam os que mais tinham se beneficiado com toda aquela situação estranha. Já Clodomiro continuava sem coração. Ele prometera uma conversa a Pryscila, mas, se fosse conversar com a menina assim, sem coração, provavelmente não valeria nada. “Ele deveria ter aproveitado a oportunidade para voltar a ter coração. Há homens que não reconhecem uma oportunidade quando estão diante delas”, murmurou.
    E Dimas pensou em Linda, que aceitara sua própria morte. “Na verdade, a maioria de nós não reconhece. Eu inclusive.”



    Escrito por Dimas Klen às 09h09
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